sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ao meu pequeno



Ei, pequeno . Senta aqui. Não me engula com esses olhos. Tenha calma e veste paciência que eu tenho muito que prosear.
Você faz uma ideia errada de mim, me toma como mulher forte e decidida. Mas sou não, pequeno.
Começo me desfazendo do mulher, sou menina. Menina frágil não, mas muito indecisa.
Por que eu finjo assim?
Ah pequeno, é que uma moça chamada vida me mostrou mentiras por verdades. Me ensinou - sem saber-, diga-se de passagem, que sentir não se demonstra, se esconde e se guarda só pra gente.
Sabe, eu até fui metida a rebelde um tempo desse. Contrariei o que essa moça me jogava na cara e me permiti sentir. Eu amei, pequeno. Eu gritei a todo o mundo que o amor era meu. Mas era não...
Era algo transvestido que parecia tanto com sentimento que me levou cair em um abismo quase sem fim. Mas eu me enganei, pequeno. Certa, então, pareceu-me a tal de vida.
Segui os conselhos dela e reprimi, escondi  aquilo que me parecia ser bonito. Eu desaprendi, pequeno. Desaprendi essas coisas do coração. Não sei mais como se faz, pra onde se vai, como se mexe.
E o que você tem com isso? Ah, pequeno, é que eu ando tentando te esconder.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ainda é você

Porque ainda é você. Ainda é você no meu caminhar sem rumo, no meu olhar perdido e no meu pensar distante. Ainda é você naquela música cantada com todo fervor, no poema recitado cotidianamente feito oração e no meu livro favorito. Ainda é você na cerveja gelada, nas cartas de baralho mal distribuídas e nos bilhetes ligeiramente rabiscados. Ainda é você nas conversas jogadas fora e nas reflexões que me tomam quase todo o tempo. Ainda é você na calmaria do meu quarto escuro e na solidão da noite. Ainda é você quando dou o meu melhor e o meu pior também. Ainda é você quando reconheço meus defeitos e quando me esforço para melhorá-los. Ainda é você quando me sinto extremamente feliz e totalmente destruída. Ainda é você quando vivo a vida intensamente e quando resolvo me entregar às surpresas do destino.
Porque mesmo com a imensa distância que nos separa, ainda é você em cada gesto meu, em cada olhar direcionado a um qualquer e em cada pedaço de mim.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Sobressair


Sabe, eu ainda escrevo e leio textos de amor, mas não tento mais vivê-los. Ainda assisto algumas comédias românticas e até choro com muitas, só não quero mais que sejam o roteiro da minha vida, entendi o quão amargo e maravilhoso é o sabor da realidade. Sim, sim. Eu ainda escuto os mesmos sambas que falam de paixão, mas não danço mais no ritmo deles; agora eu danço ao som do que tocar. Aham, eu ainda choro muitas noites com a cara enfiada no travesseiro, sozinha no escuro, com aquele efeito dramático; mas venho aprendendo a conversar mais, a desmistificar meus monstros mais profundos. Não nego, todos os dias ainda relembro o passado, meio que como uma forma de aprendizado, para não esquecer do que doeu e como eu cheguei naquele estágio patético em que eu me encontrava meses atrás. No entanto, não vivo mais fazendo do meu cotidiano um reviver do que passou, venho injetando presente na veia e estando sempre em um maravilhoso estado de êxtase. Claro, eu ainda gosto do calor - é que ele combina com meu estado de espírito e me amedronta menos - entretanto, já suporto o frio corriqueiro sem a sua presença. O sabor do sorvete permanece o mesmo, ainda não consigo andar calçada, nem tomar o café amargo que acho bonito; nunca me acostumei com o cheiro do cigarro, continuo a ficar bêbada com a mesma facilidade de sempre e meu sono permanece pesado. E falando sobre as coisas das quais nunca fui capaz de me desapegar, chegando mais precisamente até você, não preciso de rodeios. Ainda gosto, quase amo; ainda desejo, penso. E quando penso vez por outra ainda solto um riso torto só de lembrar. Mas não quero mais. Não para mim. Você, quer dizer, nós, viramos aquela lembrança bonita, mas distante demais para alimentar estímulos vitais. Serve só para lembrar mesmo. É, meu rapaz, e eu que não acreditava quando diziam que a gente aprende.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Das últimas chances


- Ei, a gente precisa conversar.
- (...)
- Eu tenho muita coisa para te dizer ainda.
- (...)
- Sério. Não me olha com essa cara cética.
- (...)
- Quero te pedir desculpas.
- (...)
- Perdão! Perdão?
- (...)
- Só mais uma chance!
- (...)
-Por favor...
- Já te dei milhões de "mais uma chance"!
- É a última.
- (...)
- Prometo que não vai se arrepender.
- É que eu jurei para mim que a próxima "última chance" seria minha...

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Inércia



Começou numa quinta feira à tarde. Descobri que tu ia ao parque todos os dias, sempre às dezessete horas e trinta minutos. Tirava o terno bem passado e se sentava em cima, olhando sempre pra o mesmo lugar. Olhando, olhando e olhando. Eu, de longe te observava. Todos os dias eu te admirava, tentando adivinhar o que se passava na tua mente, pedindo a Deus - ou a qualquer outra criatura que pudesse te colocar coisas na cabeça - que seu principal objeto de reflexão fosse eu. Imaginei tantas vezes que tu me pegaria te espiando, que me chamaria pra sentar do seu lado e me roubaria um beijo oferecido, como das outras vezes.
No entanto, nas poucas vezes em que fui flagrada, desconversei. Falei de coincidência, do acaso, enrolei. Enrolei a língua pra não gritar que te amo e fui embora - todas as vezes- com meu sentimento entalado. Prometia que da próxima vez eu ia chegar até o fim, ia gritar sussurrando pro seu coração que eu largaria tudo pra retomar o que achei ter começado. Mas sempre ficava pra próxima.
Até que em uma das próximas cheguei atrasada. Sentei no mesmo lugar de costumo e te olhei sem querer enxergar. Era uma menina. Uma moça que passaria a ser tua companhia das dezessete horas e trinta minutos e que se aninhava nos braços que eram meus, só meus. Tentei levantar, mas o sofrimento forçado e adiado me prendia as pernas; queria que eu fitasse a realidade. Impressiona dizer que não encarei? Depois que vocês foram embora permaneci sentada, não sei se por minutos ou pelo infinito. Prometi que não voltaria, mas cumprir promessas nunca foi meu forte.
Voltei. Voltei todos os outros dias. Até que, depois de muitas, te vi sem ela uma tarde. Meu coração resolveu reassumir a esperança que nunca abandonou. Te fitei, queria que tu flagrasse meu crime. Porque dessa vez eu não voltaria engasgada. Não sei se pelo acaso, que sempre me serviu de desculpas, ou por sintonia telepática, tu me flagrou. Consegui te encarar por alguns segundos, quando você me sorriu. Me sorriu da forma mais linda que alguém pode sorrir. E não esperei convite, caminhei determinada, achando que seguia a trilha do seu coração.
Como de praxe, tu iniciou um discurso sem pé nem cabeça que me fazia compreender o que eu acho ser amor. E divagou por horas sobre coisas das quais não consigo me lembrar, mas que encheram meu peito de coragem para te revelar o que eu chamava de “maior amor do mundo”. Respirei fundo, abri a boca – repetindo o gesto diversas vezes. Lá pela centésima octogésima nona tentativa, consegui pronunciar a primeira semivogal, que foi interrompida bruscamente por mãos que te taparam os olhos e palavras que te foram cochichadas.
Era ela. Mais bonita que minha vontade, sendo ladra do mínimo da atenção que eu queria para mim. Sem anestesia nenhuma tu me apresentou a ela, intitulando-a de “a mulher da sua vida”. Tive vontade de te relembrar birra e de te falar que, apesar de você não saber e da aversão que eu tenho aos rótulos, esse título era meu. Há muito tempo. Fiquei com vontade de bater, espernear, chorar e te roubar definitivamente para mim. Mas como de costume, enrolei, calei e fui embora para o que as pessoas chamam de futuro. No entanto, permaneci descumprindo promessas – inclusive a de te esquecer. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

E lá vem ela


Ouvidos sempre atentos para compensar a pouca visão, dedo indicador sempre a posto, ao nível da cabeça. Vez em quando, pernas balançando e sempre com a cabeça fervilhando de ideias. Meus dias, há muito, resumem-se na profana utopia de mudar o mundo; e devido a isso, tornei-me tagarela de marca maior e chata de carteirinha. 
Olhos revirados e risinhos de canto de boca demonstram sempre o amor dos colegas: “lá vem ela”.  Fazendo-me, ao final de cada dia, refletir sobre uma possível boca fechada, mas resultando em todas as minhas preces implorando para que o silêncio nunca me domine.
Passei de “garota de personalidade forte e opinião polêmica” para “moça metida e inconveniente”. Se assim o sou, aceito de bom grado. Estereótipos não combinam com minha indumentária, se “ser do contra” for ser sempre contra aquilo que está enguiçado, é essa a capa que visto.  
E no devaneio de que com conselhos comodistas irão aquietar minha língua e coração, aconselham-me todos os dias: “ignore. Ignorar é o santo remédio. Pra conversa besta a gente não dá atenção”. No entanto, insistindo na rotina de contrariar aquilo que se perpetua, não acredito que em boca fechada não entra mosquito; para mim em boca fechada entra barata, rato e todas essas coisas das quais se tem nojo, deixando a gente podre por dentro. Para mim, calar não é consentir, é bem mais: é omitir. É mais do que dizer: “eu concordo com você”, é afirmar: “eu apoio você”. Tenho a omissão como algo tão grave que me conduziria a um coma, a uma meia vida. Não me calo nem dormindo, que dirá incomodada! 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Síndrome de Gabriela OU dos genes



“Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim. Vou ser sempre assim: Gabriela”.
Como se nome e música tivessem se combinado propositalmente em meu ser, eu não tenho medo de falar: quanto mais eu mudo, mais me torno a mesma pessoa. Por mais bem elaborado que seja o movimento de rotação, e de mudanças mirabolantes e maravilhosas que ele provoque, acabo sempre tonta de tanta mesmice minha. Não consigo dançar no mesmo ritmo da Terra e acabo pisando no pé da parceira, nos primeiros momentos da valsa, todas as vezes. Quando acaba o giro, me encontro sempre no mesmo ponto, permanecendo nos mesmos erros.
Talvez pudesse dizer que a teimosia foi herdada, que não furtei, foi presente de pai e mãe. Será por isso tão exacerbada, meu Deus? De tanto teimar em ser eu mesma, iludida com a mentira de que as novas oportunidades de quebrar a cara – geradas sempre pelo mesmo motivo – me levarão a um projeto mais calmo e menos impulsivo de mim mesma, mantenho por cinco minutos e trinta segundos, a certeza de que não irei me importar mais e de que vou me manter calada.
Só que não sei porque diabos, algo forte se remexe dentro de mim, me fazendo em um terço do tempo previsto expulsar as rebeldes palavras, proferindo minha opinião gratuitamente. Defendendo com unhas e dentes o lado da verdade que me pareça menos hipócrita. Merecendo ouvir, principalmente de mim mesma, um: “quem te perguntou, Gabriela?”.
Não sei de onde tirei essa ideia maluca de que as coisas mudam. Quem sabe, seja tudo genético: um pai sem juízo, que alimenta sonhos utópicos de mudança e uma mãe doida que afirma que para reconstruir, só basta agir. Por culpa desse sangue forte, a quase que expressão verbal ficar na minha não se aquieta no meu vocabulário nem por meio minuto. Ganhando sempre o Óscar de melhor chata do ano.
Reafirmo, não tenho culpa. Provocado pelos benditos genes ou não, isso é mais forte do que eu. Palavras e a força que elas têm, representam mais pra mim do que a omissão nossa de cada dia. Impossível não terminar esse monólogo – sem pé e nem cabeça – continuando a ser repetitiva “EU NASCI ASSIM, EU CRESCI ASSIM E SOU MESMO ASSIM. VOU SER SEMPRE ASSIM: GABRIELA. SEMPRE GABRIELA”. Porque para birrento, insistir é mero pleonasmo de si mesmo.